quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Sala cheia

De novo silêncio.
O silêncio mais belo.
Até mais belo que o silêncio entre amantes. É um silêncio para as pessoas, as centenas que aqui estão sentadas. Aqui somos livres de pensar. E ninguém pergunta.
Ninguém pergunta em que penso, no que escrevo, no que sinto, porque sorrio. Cada um está só, agora. Todos juntos para o silêncio. Todos sós num grito que só nós ouvimos. Quão belo é isto?
Os nossos pais, amigos, amantes, perguntam no que penso, no que quero fazer. Aqui, olhámo-nos, sorrimos e abraçamo-nos. Trocamos ideias, crenças, experiências. É só isto.
E depois, voltarei para o silêncio das minhas quatro paredes, ouvindo apenas os passos do gato e ouvindo os carros pela janela do meu quarto.
Todo o meu silêncio ficará aqui.
Levo comigo a sensação do silêncio, mas ele fica aqui como é, inaudível, sereno.

É um silêncio que me deixa calma. Até me dá para escrever. Será silêncio então?

Adorada França

Em julho, passei uma semana numa comunidade autossuficiente em França, onde conheci os belos campos franceses. Nesse local, tão mágico e belo, muita coisa foi sentida e transcrita para o papel. O que se seguirá são as palavras que resumem, muito vagamente, a intensidade de sensações que vivi.



Estranho como as fronteiras me iludem a vista. Os campos aqui têm tons e cheiros que não existem no meu país. As árvores têm outros sussurros, a sensação de vida é outra. Sentirei saudade de aqui? Que limites nos dão os muros ilusórios? É tudo apenas isso, uma ilusão. Está tudo dentro de mim. Os são campos são igualmente verdes, tão iguais aos verdes do Minho.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

São duas da manhã e o teto branco é mais interessante que as ruas apinhadas de gente no Cais do Sodré.
Penso, penso até me doerem as têmporas e o estômago.

Pernas, mexam-se.
Tenho de sair desta cama, soltar-me dos cadernos e abraçar corpos.

E tudo em que penso, é no dia da amanhã,
e no dia a seguir,
e no dia a seguir a esse,
até te imaginar velho, rodeado de netos, sem te lembrares do meu nome.

Os beijos nos bancos de trás do carro.
As corridas na areia, de noite,
a dança no meio do mato.
Que todas estas coisas apenas existam no meu cérebro.

As pessoas voam dentro de nós, mudam os órgãos de sítio, põem a cabeça no lugar do coração e o coração na mão esquerda. E desaparecem. Como se fosse fácil viver com um coração na mão esquerda.

A paranóia do esquecimento.

O esquecimento. Essa palavra que tanto me atormenta. Que me dói pronunciar.
A minha mente sempre me atormentou.
Faz questão de me lembrar das datas, da comida, das cores dos olhos, da gestualidade das mãos. Tudo é fácil de recordar.
É tão fácil de doer.


(é impressão minha ou este texto ficou tão estranho mas com algum potencial? Hum...)



quinta-feira, 13 de julho de 2017

Olho para os teus olhos da mesma maneira que olho para o mar. Tão estranho encontrar o mar nos olhos de alguém.
O mar sempre foi a minha maior admiração. Tão profundo, tão belo, tão denso. Impenetrável, para sempre um mistério.
Mas encontrei-te, penetrei-te, nadei dentro de ti como nado no mar.
Mas encontrei a tua essência, de onde vem essa tua beleza.
Mergulho em ti.
Mato a minha sede nas tuas lágrimas.
Na tua densidade.
És o mar com que sempre desejei fundir-me.

domingo, 9 de julho de 2017

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Estranho como os lugares se tornam pessoas. Pessoas adoradas que caminham por cima de nós, sem o sabermos. Pisam-nos, vivendo em silêncio. Que triste a vida se torna quando as pessoas desaparecem, assim, por entre os dedos. E ainda nos dizem que é natural. A vida continua. Continua, pois, o sol não vai parar com a minha tristeza. Mas tudo existe ainda, no meu peito,  na minha cabeça e sobretudo, nos sítios. Naquele sítio, à beira do rio, que se tornou ainda mais belo por ser nosso. Lembro-me dos cabelos a esvoaçar, o teu abraço quente, a proteger-me da brisa. Passaram-se assim horas, entre silêncios, beijos e palavras de amor. E um belo pôr-do-sol, em pleno Dezembro, o mais bonito, porque estava contigo. Mas não me dói mais. A dor acaba por desaparecer. É bom, passar pelos sítios e sorrir, porque as lágrimas já o tempo as levou, e tu também. Guarda as minhas lágrimas, e lembra-te que o amor também é tristeza. As promessas foram com o vento. Os abraços ficam nos nossos peitos. E o meu ser, a minha existência, há muito que a levaste. Agora, sou outra. O amor leva-nos.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

final de tarde. é verão, o sol ainda está alto. deitada, no chão, de olhos semicerrados, apaixono-me pela luz que se invade entre as minhas pestanas. de frente ao sol, a olhá-lo, vejo as cores, as formas inexpressáveis que este cria nos espaços entre as minhas pestanas. é quase como estar de baixo de água. nunca vi estas formas, esta vida, esta beleza, num filme, nem escritas num livro. como é bom estar sóbria! azul, celeste, verde, até vermelho, sobrevoam-me a íris. natural, simples, magnífico. é tão fácil encontrar a beleza. não consigo expressar a bela imagem que é o sol entre as pestanas. mas rapidamente, me canso. tenho sede de mais sensações, mais belezas, quero me arranquem o coração do peito e me puxem para fora de água. fecho os olhos, e navego pela minha imaginação, até o cérebro se desligar e entrego-me à calma do final de tarde, ao pousar do sol, embalando-me num sono, ao som das gaivotas.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Acalmante

Esqueço-me sempre que o comboio para o Rossio vem às e 26 e não às e 22 como o que vai para Entrecampos. Espero, assim, 10 minutos. A estação tem três pessoas. Podera, é meio-dia, as pessoas trabalham a esta hora. E depois há uma percentagem que anda perdida de comboio em comboio, encantando-se com a paisagem fugaz oferecida pelas janelas, mas chega para matar o vazio no peito, por uns segundos. Leio o livro que comprei há duas semanas, um do Al Berto, que me enche a alma de lágrimas e vontade de viver. Vivo assim, a vida dos outros. Sinto sensações de personagens que não me são reais. Não lhes posso tocar, mas habito por baixo das suas peles. O comboio aproxima-se e custa-me desviar os olhos das belas palavras. Não costumo sentar-me nos transportes, tenho pernas jovens que aguentam o peso da minha cabeça. Mas hoje não aguentam o peso do meu coração, e lá me apoderei de um lugar, à janela, claro. Bastei-me da minha leitura. Estranho, nem observei as pessoas a meu redor, pois alimento-me das minhas observações. Vejo rostos, mãos, olhos, gestos, abraços, flores, cores e fecho os olhos e crio a minha história na minha cabeça. Afinal de tudo, a imaginação é a minha melhor forma de viver.