segunda-feira, 11 de setembro de 2017

danço freneticamente neste bonito pôr-do-sol.
rodeiam-me rostos familiares, mas não reconheço as suas vozes.
não me interessa.
só quero dançar, deixa-me dançar.
gostava de desligar, de vez em quando, os meus olhos que buscam todas as formas que consegue captar.
e o meu corpo quer seriamente dançar, pára de observar.
mas...e se olham para mim? e se perco um belo par de olhos?
nada interessa.
nada me interessa sem ser este breve instante frenético de dança.
dou-lhe a mão e o meu corpo liberta-se ao som da música.
dá-me o braço e dançamos juntos, todos.
rir, rir e dançar, para tudo esquecer.
não interessa quem me rodeia.
a vida é só minha.
todos se esquecem.

domingo, 3 de setembro de 2017

(escrito em França)

Tão diferente, mas tão igual.
Sinto-me leve, distante, como se não fizesse parte de lado algum. Caminhando sem apego, sem casa. Olho para estes campos, tentando não compará-los aos da minha terra, mas são incrivelmente parecidos. No entanto, dão-me outra sensação, aliás, várias sensações que a minha terra não me dá. Mas são iguais. Está tudo na minha cabeça. O mundo acaba por ser tão semelhante. Tudo o que muda está no meu peito.
Entristece-me porque vou ficar feliz por voltar à minha terra. Como se toda a minha identidade está lá. Somos terra, basicamente.
(escrito em França)

Dói-me a cabeça, os braços, os olhos quando penso em toda a existência. Uma dimensão enorme que me é totalmente desconhecida. Procuro viver os dias como se estes nunca acabassem, como se a mudança não fosse a ordem natural das coisas.
Depois, penso que um dia as minhas pernas me vão falhar, os meus braços não vão responder de imediato ao meu cérebro e os olhos me vão cansar. Um dia, fartarei-me de viver. Que dor me dá só de pensar nessa triste realidade. Desejar morrer porque me cansei de viver. Como é que isso é possível? Porque o corpo não nos permite mais, mas e se a cabeça tiver toda a vida dentro dela? A imaginação foi sempre a minha solução. Ou talvez, a cabeça também se canse e deseja também deixar de viver. Que pensamento atroz este!
Gosto tanto de viver, mas tenho vontade de chorar, pois nada dela eu sei. Vivemos e pronto. Não façamos perguntas, vivamos as respostas. Pois a resposta que me dão é sempre a mesma. Vive somente, não te preocupes, não penses.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Uma carta a um estranho

(não é da viagem a França)


Querida senhora que me pôs a sorrir quando a minha vontade era de gritar e chorar. Não lhe passará pela cabeça o quão o seu sorriso e olhar carinhoso me alegrou o dia. Pôs-me a pensar, senhora. Acordei feliz, a vida dá um pontapé em todas as minhas alegrias, para me deixar em lágrimas e em stress constante. E corro, e resolvo, e grito, e fecho a mão num punho e os olhos para guardar toda a raiva dentro de mim. Um fogo dentro de mim pronto a explodir. Perdendo a fé na humanidade, que a bondade escasseia nos corpos que encontro e eu queria mesmo abraçá-los e dizer-lhes que não estão sozinhos, que nos amamos todos. Não, não, nada disso. Espera, sofre, não me interessa. Até encontrar a senhora que pedia ajuda, sorriu, levou as mãos ao peito e olhou-me carinhosamente e agradeceu, genuinamente. Até me vieram lágrimas entre o sorriso. Há tanta beleza no mundo aí. Obrigada senhora, não esquecerei o seu rosto, os seus olhos azuis cheios de amor e incerteza e nunca saberá o quão feliz me deixou e me influenciou.
 Bonito isto de nada sabermos que impacto temos nas pessoas. Achamos que somos apenas pó e as pessoas ouvem e esquecem todas as nossas palavras. As pessoas lembram-se. Como me posso esquecer de um sorriso que me fez sorrir também, numa altura que tudo fazia sentido?

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Sala cheia

De novo silêncio.
O silêncio mais belo.
Até mais belo que o silêncio entre amantes. É um silêncio para as pessoas, as centenas que aqui estão sentadas. Aqui somos livres de pensar. E ninguém pergunta.
Ninguém pergunta em que penso, no que escrevo, no que sinto, porque sorrio. Cada um está só, agora. Todos juntos para o silêncio. Todos sós num grito que só nós ouvimos. Quão belo é isto?
Os nossos pais, amigos, amantes, perguntam no que penso, no que quero fazer. Aqui, olhámo-nos, sorrimos e abraçamo-nos. Trocamos ideias, crenças, experiências. É só isto.
E depois, voltarei para o silêncio das minhas quatro paredes, ouvindo apenas os passos do gato e ouvindo os carros pela janela do meu quarto.
Todo o meu silêncio ficará aqui.
Levo comigo a sensação do silêncio, mas ele fica aqui como é, inaudível, sereno.

É um silêncio que me deixa calma. Até me dá para escrever. Será silêncio então?

Adorada França

Em julho, passei uma semana numa comunidade autossuficiente em França, onde conheci os belos campos franceses. Nesse local, tão mágico e belo, muita coisa foi sentida e transcrita para o papel. O que se seguirá são as palavras que resumem, muito vagamente, a intensidade de sensações que vivi.



Estranho como as fronteiras me iludem a vista. Os campos aqui têm tons e cheiros que não existem no meu país. As árvores têm outros sussurros, a sensação de vida é outra. Sentirei saudade de aqui? Que limites nos dão os muros ilusórios? É tudo apenas isso, uma ilusão. Está tudo dentro de mim. Os são campos são igualmente verdes, tão iguais aos verdes do Minho.